Sábado, Janeiro 7

a razão pela qual não te consegues descrever.

O que dizes ser, nada tem a ver com o que és efectivamente, embora tal não signifique que não haja coincidências. É provável que te interpretes falando de forma tendenciosa do que queres garantir ser, aos olhos de cada um, ou do que te queres convencer que és, dada a infelicidade de o não ser. É, portanto, por isso, que fazes dos teus ouvintes receptores de palavras tristemente sentidas e desejadas. Eles ouvem sobre o que não és, ou o que não és de todo, pelo que à partida vamos chamar-lhes pseudo-conhecedores-de-ti. Estes últimos, a que nos voltamos a referir, não ouvem apenas. São também dotados de outras formas de apurar o conhecimento do teu ser. Porém, o que tu és verdadeiramente, também não corresponde à opinião externa, mesmo que sob um olhar carregado de boas aptidões explicativas. Nenhum concilio de opiniões que se têm de ti, posteriores a uma observação atenta, consegue reunir a verdadeira essência do teu ser. Pelo dito, os outros - isto é, aqueles que tomam uma posição perante o teu olhar -, continuam a não ter razões para não lhes chamarmos pseudo-conhecedores-de-ti, pelo que continuemos a designá-los assim. Quanto ao que és, sem tirar nem pôr, e chegada a vontade de o tentar fazer assomar: um sem-número de coisas cujo próprio conteúdo não concede que o descrevam na sua íntegra -, é o que és. Uma infinidade que escapa a todo o segundo, até que surge uma nova, a seguir outra, mais uma, duas! És um conjunto de infinitas infinidades. Pelo que ninguém te consegue descrever, nem tu.

(AH! E quanto àqueles que a gente sabe, continuam a ter todas as condições reunidas para que lhes chamemos pseudo-conhecedores-de-ti.)

Quinta-feira, Março 10

pseudo-poeta.

És poeta fingido, és pois.
Pegas na mais robusta pena de ganso, na tintura negra de bugalho moído, e numa densa folha de papel sedosa…
Escrevinhas e fazes rabiscos. Elevas a obra que de ti não emerge.
E embora tal não passe de uma confissão astuciosa,
Reconheço que quase me enganas. Ó enganador!
Pseudo-poeta! És tudo aquilo que o não chega a ser por inteiro, ainda que bem ensaies a tua representação – a de ser trovador.
És igual a uma certa verba de gente e análogo a muitos outros que tais.
Falsário, hipócrita… Enganador, en-ga-na-dor!

É esse que eu vejo, o café despercebido, da tal cidade monocromática.
O sítio onde te mascaras… e finges derramar para o papel a lisura que te corre nas veias. Seu pobre… seu fraco.
Porque usas as palavras com fins estéticos?!
Para depois falares que és sonhador?
Para mostrar que também tu podes ser lunático?
Para ostentar o teu discurso peculiar?
Para o que quer que seja, mente astuta, não o parece.
Enganas os que passam com um cansaço dissimulado,
E quase me enganas a mim… Quase, a mim, me enganas!

O que peço?!
Que te dispas por uma vez, e te despojes da falsa imagem,
Sublime para os outros, não sei se bela para ti,
A que tens vindo a criar ao serviço de outrem.
Que te dispas!
Que te dispas!
Para escrever o que sentes, não o que te fica bem sentir…
Enganador.

Sábado, Fevereiro 12

solidão.

Um lugar ermo, desguarnecido. Uma aragem frívola que circula em vão. E uma mão cheia de sonhos taciturnos, que não perduram. Visões absurdas e alegóricas. Utopias!
A rapariga acalenta-se no esvaído recinto automático, consumindo a chama do vazio que a ronda. De olhos vidrados, lá está ela: nobre, genuína, digna de respeito. Sentada num corpo cujo propósito precedeu a existência. Já com o seu ego passa-se o contrário: não há uma analogia; deram-lhe existência e encontra-se, então, em busca da essência, o propósito. Sempre se mostrara tão altivo que conseguiu afastar todos aqueles que lhe eram próximos. Uma pena, pela beldade da moça.
O café faz o que pode para não amolece-la, que depois irá percorrer milhas de estrada no seu velho e cómodo Cadillac. Um percurso árido que só findará num dos seus quatro solares retirados e esmorecidos. Até lá, ela vai permanecer só e desamparada. Porque a grandiosidade do seu ego remete para a segregação. Solidão.