O que dizes ser, nada tem a ver com o que és efectivamente, embora tal não signifique que não haja coincidências. É provável que te interpretes falando de forma tendenciosa do que queres garantir ser, aos olhos de cada um, ou do que te queres convencer que és, dada a infelicidade de o não ser. É, portanto, por isso, que fazes dos teus ouvintes receptores de palavras tristemente sentidas e desejadas. Eles ouvem sobre o que não és, ou o que não és de todo, pelo que à partida vamos chamar-lhes pseudo-conhecedores-de-ti. Estes últimos, a que nos voltamos a referir, não ouvem apenas. São também dotados de outras formas de apurar o conhecimento do teu ser. Porém, o que tu és verdadeiramente, também não corresponde à opinião externa, mesmo que sob um olhar carregado de boas aptidões explicativas. Nenhum concilio de opiniões que se têm de ti, posteriores a uma observação atenta, consegue reunir a verdadeira essência do teu ser. Pelo dito, os outros - isto é, aqueles que tomam uma posição perante o teu olhar -, continuam a não ter razões para não lhes chamarmos pseudo-conhecedores-de-ti, pelo que continuemos a designá-los assim. Quanto ao que és, sem tirar nem pôr, e chegada a vontade de o tentar fazer assomar: um sem-número de coisas cujo próprio conteúdo não concede que o descrevam na sua íntegra -, é o que és. Uma infinidade que escapa a todo o segundo, até que surge uma nova, a seguir outra, mais uma, duas! És um conjunto de infinitas infinidades. Pelo que ninguém te consegue descrever, nem tu.
(AH! E quanto àqueles que a gente sabe, continuam a ter todas as condições reunidas para que lhes chamemos pseudo-conhecedores-de-ti.)
